Globo da morte é garantia de emoção

Com mais de 100 anos de existência, o Globo da Morte nunca sai da moda e continua sendo uma das principais atrações circenses ao lado dos palhaços e mágicos.

Texto: Johnny Inselsperger
Fotos: Osvaldo Furiatto Jr.

“A vibração e o calor do público durante a apresentação dos globistas é maior que as outras atrações”, garante Ewerton Lestar, proprietário e apresentador do Big Brothers Cirkus.

Lestar tem 36 anos e nasceu no circo. Ele conta que já foi trapezista, homem-pássaro, mágico e adestrador de ursos, leões, macacos e até ratos. “Comprei o globo para eu fazer o número, mas depois que vi um acidente desanimei. Hoje eu vejo que acertei, pois sinto a vibração e a adrenalina do público. As pessoas ficam paralisadas.”

Se para quem está observando a sensação é forte, imagine para quem lidera uma trupe dentro da “jaula de aço”. O globista Oleimar Dantas, de 36 anos, lidera a trupe ao lado de mais dois companheiros, Allan Tardelli, de 22 anos, e Gabriel Castilho, de apenas 18 anos.

Dantas explica que seu avô e seu pai são globistas e a primeira coisa que aprendeu na vida foi brincar no Globo da Morte. “Com 12 anos rodava de bicicleta junto com três motos. O globo era maior e no mesmo ano pilotava dentro do globo da morte com mais cinco globistas.”

O experiente piloto conta que realiza uma média de 40 apresentações por mês e explica que quanto menor o globo, mais difícil para os pilotos. Para ele, o bom piloto precisa de coragem, determinação e treinamento. “É treinar, treinar e treinar”.

Dantas já sofreu pancadas e fraturas nas costelas, pé, joelho, punho e ombro. “ Já perdi o número de tombos que tomei”, disse.

Casado e pai de dois filhos, o piloto não pensa em aposentadoria. “ A hora de parar é quando o reflexo é menor. Tenho um tio que andou até os 55 anos.”

Rodando o Brasil

Com apenas 18 anos, o ator Gabriel Castilho trabalho no Globo da Morte desde os 14 anos após concluir o Circo Escola do Beto Carreiro. “Já rodei o Brasil inteiro. Primeiro foi o Norte e o Nordeste. Depois tirei o DRT de ator (registro no Ministério do Trabalho). Fiz alguns trabalhos como modelo e ator, mas o maior incentivo de voltar para o circo foi a oportunidade de conhecer o Sul e o Sudeste.”

Respeito

Com apenas 22 anos, o globista Allan Tardelli conta que já passou por quatro circos e acumula em seu currículo dois graves acidentes com fraturas no braço e perna. “O medo tem que existir. É uma profissão em que a adrenalina é diária.”

Todo piloto respeita o Globo da Morte e sabe que a realização do bom trabalho não depende só dele. “O trabalho é homem e máquina. Quando você está confiante a moto te derruba”, disse Castilho.

Mulheres

Tanto para Tardelli quanto Castilho, uma das grandes motivações de ser um globista é o fascínio que o espetáculo cria nas mulheres. “As mulheres chegam junto e deixam o número de celular. A gente faz amizades, mas depois precisa ir embora. Eu gosto de viajar”, conta Castilho.

Por outro lado, os homens estão deixando de dominar sozinhos a esfera de aço. “Tem uma menina que está ensaiando. “É um glamour quando o público vê uma mulher tirando o capacete”,
admite Lestar.

Motos

Hoje não se usam mais as motos de motor dois tempos (2T) que tinham um ronco estridente e soltavam muita fumaça que elevavam ainda mais a adrenalina. O proprietário do circo Big Brothers Cirkus conta que muitas crianças ficavam assustadas. Por isso, as motos utilizadas nas apresentações são Yamahas modelo XTZ 125, que ganham iluminação que deixa a apresentação ainda mais bonita quando o circo fica completamente no escuro enquanto os globistas realizam 12 manobras durante aproximadamente 15 minutos.

Oleimar Dantas explica que o Globo da Morte ganhou seu maior impulso no Brasil nos anos 1980 com a entrada no mercado da Yamaha TT 125cc. Depois vieram as motos com suspensão monochoque, que permitiram manobras mais avançadas. A única preparação das motos ocorre no carburador para a moto não falhar quando está de ponta-cabeça.

Segurança

Dantas explica que andar de moto dentro do Globo da Morte parece que está rodando em uma rua esburacada que castiga a coluna, pescoço e braços. “Nunca vi uma pessoa morrer no Globo da Morte. O maior perigo é a roda atingir o pescoço. Meus tios contam que já viram globistas morrendo, mas naquela época o piloto usava uma boina na cabeça, calça do Exército e botas”, explica Dantas.

Os globistas também realizam apresentações fora das lonas, em feiras e festas. A montagem do Globo da Morte leva cerca de três horas e a apresentação custa entre R$ 8mil e R$ 10 mil, segundo Lestar.

História

Segundo a Wikipedia (enciclopé-dia da internet), o Globo da Morte consiste em uma espécie de uma jaula em forma de esfera de aço onde alguns motociclistas andam com suas motos por dentro dela.

Ele foi criado nos Estados unidos, em 1904 e veio para o Brasil na década de 1930 com o italiano Guido Conci e sua turma de globistas. Entre eles o grande astro da moto Carmino Rizzo. Na época, Panair do Vale com apenas 13 anos aprende as técnicas dentro da esfera, ainda sim mal alcançava os pés no Globo para se apoiar na motocicleta.

Panair, pioneiro na exportação do Globo e de brasileiros para outros países, leva o alto nível do show proporcionado por brasileiros no Globo da Morte. Quando dizem que os brasileiros são bons de bola, estão corretos, pois também dominam esta arte.

Dantas conta que no começo as manobras eram realizadas numa espécie de bacia, mas quando a moto escapava, acaba atingindo o público que assistia de cima.

Experiência própria

Muitas pessoas que trabalham no circo desejam andar no Globo da Morte e tudo começa com bicicletas e motos menores. Para ter uma ideia da dificuldade enfrentada por um globista, resolvi experimentar rodar de bicicleta dentro do Globo da Morte. Caro leitor, tenha certeza, é muito difícil. Primeiro você precisa superar o enjoo de ficar rodando em círculos, que não consegui superar. Depois ainda é preciso manter a circunferência dentro da esfera, pois a roda tenta abrir o círculo e o globista precisa inclinar o corpo para manter a trajetória. Como não foi possível pilotar, o jeito foi ficar no centro do Globo da Morte para observar bem de perto as manobras realiza-das pelos globistas e conferir um pouco mais de perto todas as emoções do espetáculo (confira o vídeo no site). Resumo tudo que senti dentro da jaula de aço em apenas duas palavras: haja coração.

1 Comment

  1. Luís Rubens Tavares Conci

    Nesta data tão especial venho por meio desta declarar alguns fatos importantes meu avô sr Guido Conci e minha avó a pioneira a andar no globo da morte! Meu pai já falecido também andava de bicicleta enquanto meus avós giravam ao seu redor levando a criatividade e a emoção por vários países minha avó russa meu avô italiano!! A verdade é essa!! Aos admiradores do globo da morte!

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