Retrô com adrenalina

Vespas e Lambrettas

Vespas e Lambrettas levam charme e emoção para ruas, estradas e pistas

Texto: Johnny Inselsperger | Test Rider
Fotos: Osvaldo Furiatto Jr.

Oaroma de óleo 2T está no ar. Grande chance de um ou vários scooters clássicos estarem por perto. O ronco do motor característico anuncia a chegada. Já o contato visual é inconfundível: estamos diante de uma turma apaixonada por Vespas e Lambrettas. São pessoas que garimpam raridades que estavam encostadas em garagens e até mesmo penduradas em paredes. Eles lutam para levar mais charme para as ruas e estradas de todo País.

As organizações são importantes para manter viva e despertar novos admiradores para a paixão pelos charmosos scooters das marcas italianas Vespa e Lambretta. Elas funcionam para agregar os admiradores e proprietários, além de facilitar o intercâmbio para a troca de experiências e mesmo auxiliando na localização de peças, acessórios e scooters que estão à venda. Também organizam encontros e passeios.

Vespas e LambrettasE foi com a proposta de estimular ainda mais as atividades envolvendo os scooters que o grupo Motonetas Clássicas de Campinas e Região realizou há exatamente um ano a primeira edição da corrida que reúne Vespas e Lambrettas, denominada Desafio de Motonetas. Ela chegou à sexta edição no mês de maio deste ano e já atraiu scooteristas até de outros estados.

O empresário Tatu Albertini, de 39 anos, é o criador do grupo Motonetas Clássicas e também o idealizador das corridas entre scooters clássicos, que ocorrem em Paulínia, no Interior de São Paulo. “Tudo nasceu da tentativa de resgatar a velha guarda e também algumas ‘sucatas’ para juntar tudo e fazer a coisa andar”, conta o despojado Tatu. O quartel-general (QG) do grupo funciona na casa do Tatu, que fica no Jardim Garcia. O local parece um museu, com partes de scooters e outras raridades espalhadas pelas paredes. É ali que Tatu reúne adeptos, promove encontros e ajuda localizar scooter à venda e peças. “Agora a briga é contra a dificuldade para regularizar a documentação. Muitos scooters têm placas amarelas e o documento fica travado. Precisamos juntar os colecionadores e fazer uma mobilização em Brasília”, convoca Tatu.

Vespas e LambrettasO Motonetas Clássicas nasceu da vontade de andar com outros scooteristas. “Sonho com elas (scooters clássicos) desde moleque. Comprei a primeira com 37 anos. Conheci o grupo Scooteria Paulista, de São Paulo, e andando em Campinas comecei a conhecer outros scooteristas”. Em 2011, Tatu organizou o primeiro passeio e nos encontros despertou a ideia de promover as corridas. “Até rifa de motonetas a gente já fez para estimular as restaurações e a preparação de outras para corridas”, revela Tatu.

Apaixonados
O empresário Leonardo Freitas, de 27 anos, pilotava uma Suzuki Bandit 1100 e sentia uma vazio no seu amor pelas duas rodas. Resolveu seu problema após vender sua moto e comprar uma Lambretta Série Brasil 1962. Freitas gastou R$ 15 mil na restauração do scooter, que estava parado há 20 anos. “Eu acho bonito o estilo da Lambretta. Tem linhas que remetem a uma época que admiro muito.Minha noiva adora” Para Freitas, a Lambretta serve como terapia. “Eu vivia um momento de muito stress e ela era um hobby.” O empresário utiliza o scooter para todas as locomoções que realiza no dia a dia. “Acabei de fazer uma viagem de 630 quilômetros. Ela não corre, mas dá muito mais orgulho que a Bandit”, compara Freitas.

Vespas e Lambrettas

Corridas
A primeira edição do Desafio de Motonetas ocorreu no dia 29 de junho de 2012, no kartódromo San Marino, em Paulínia, com a participação de 10 scooters, mas apenas oito correram. “O que mais chamou a atenção foi o público com cerca de 80 pessoas. Em outras edições da corrida chegamos a ter 17 pilotos na largada, incluindo gente do Paraná e os mineiros. O restante é da Capital e do Interior de São Paulo“, conta o idealizar do evento.

Tatu entende que melhor da competição é ver as motonetas fora das garagens. “Lógico que todos querem ganhar a corrida, mas o resgate dessas máquinas é a maior vitória.” A sétima edição do encontro está com inscrições abertas e está marcada para o dia 28 de julho deste ano.
Com a semente plantada, os frutos começam a ser colhidos. Tatu conta que grupos do Sul do Brasil estão organizando corridas com scooters clássicos. “A gente deu o chute inicial e a intenção é ver todo mundo fazendo as corridas. As corridas já existiram no passado, quando esses máquinas eram zero quilômetro. Estamos resgatando a história.”

Vespas e Lambrettas

Passeios

Diferente das motos e veículos que rodam na cidade e utilizam o motor de 4 tempos, o funciona-mento das Vespas e Lambrettas é de 2 tempos e o óleo que lubrifica o motor é colocado junto com a gasolina no tanque de combustível. O resultado disso é uma fumaça e um cheiro característico. Mas nem isso tira a animação dos amantes dessas máquinas. “O cheiro do óleo 2T causa lacrimejação nos olhos e tampa a respiração. Mesmo assim é um prazer enorme, pois isso só acontece quando juntam uns 20 scooters”, conta Tatu, exibindo um sorriso maroto.

Mas nem todos se reúnem para viver aventuras. Flávio Barbie planeja fazer a viagem para o Atacama, no Chile, junto com um amigo no mês de agosto. A aventura será a bordo de uma Vespa PX 200 ano 1986. A vontade surgiu durante uma viagem para Montevidéu, no Uruguai. Serão 7.800 quilômetros em 12 dias e depois planejo viajar para a Patagônia”, revela Barbie.

Aos 73 anos, Carlos Berner está longe da aposentadoria. No momento convive com os pinos que acabou de ganhar na perna após cair com uma Honda XL 250 fazendo off-road com amigos. Berner revela que em 1964 conseguiu a representação da Lambretta em Campinas. Ele ministrou aulas para mecânicos da Lambretta, Yamaha e Honda. “Já reformei Lambretta do cantor Roberto Carlos e do apresentador Ratinho (Carlos Roberto Massa). Ainda restauro, mas só para colegas.” Berner ainda mantém rodando três Lambrettas, sendo uma de competição. “Tive 19 acidentes. O óleo 2 tempos está na minha veia”, explica Berner.

Da turma de Campinas, o comerciante Uitamar Bandeira, de 51 anos, é o mais chamativo. Sua Lambretta ganhou o carinhoso apelido de ‘penteadeira de puta’, pois carrega adornos e badulaques em exagero por todos os lados. A Vespa 1981 150 Super tem até partida a distância com controle remoto. “A customização foi baseada nos rebeldes ingleses que exageravam nos acessórios. Já chegou a ter 100 pessoas para ver a Lambretta dando partida sozinha”. Bandeira mantém dez motos, inclusive dois do tipo indiano tuk-tuk. “Tenho Vespas e Lambrettas desde os 15 anos. Costumava ser viajante solitário. Com a internet podemos nos relacionar com pessoas que gostam do mesmo veículo.”

Vespas e Lambrettas

Grupos
O número de grupos de scooteristas clássicos está aumentando no Brasil. O Clube da Lambretta de Jundiaí é o mais forte do Brasil e sobrevive desde os anos 1960 mantendo a tradição. Em São Paulo, a Scooteria Paulista vem fazendo muito barulho e reunindo proprietários de Vespas e Lambrettas. O fundador, Márcio Fidelis, explica que tudo começou há três anos e meio e chegou a reunir 107 membros ativos, se tornando a maior grupo da América. Agora, a sociedade sem fins lucrativos passou por transformação e ganhou o nome a Sociedade 2 Tempista Scooteria Paulista e reúne 22 sócios oficiais, adimplentes e ativos na administração.

O IV Encontro Nacional promovido pela Scooteria Paulista em São Paulo e Mairiporã atraiu scooteristas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, além de viajantes da Colômbia, Paraguai e Argentina. Márcio Fidelis acredita que existam cerca de 17 clubes ou grupos de Lambrettas e Vespas no Brasil, sendo que 15 ele visitou pessoalmente. Fidelis afirma ser impossível quantificar o número de scooteristas no Brasil, mas calcula algo em torno de 4 mil pilotando pelo País.

A Scooteria Paulista realizou, durante o Carnaval deste ano, o maior encontro do Brasil de motonetas, com participação de 180 scooters em três dias de eventos, tendo 140 delas participado de um giro histórico pela cidade de São Paulo.

Já o maior clube de motonetas do mundo é o Vespa Club d’Itália, que tem mais de 60 anos de história e agrega outros clubes e vespistas da Itália toda. Eles têm o respeito da classe e possuem uma estreita relação com a fabricante.

Peças para reposição
Os clubes ou grupos têm grande importância também na hora de localizar peças de reposição. Eles ajudam com indicações, suporte teórico e encaminhando aos lojistas e mecânicos. Márcio Fidelis, da Scooteria Paulista, garante que é possível de se encontrar quase todas as peças de reposição necessárias para Vespas e Lambrettas de construção ou montagem nacional. No caso dos primeiros modelos é preciso garimpar, mas é possível de se encontrar ou encomendar do exterior.”

Segundo Fidelis, o comércio das Vespas e Lambrettas acontece nas lojas, em sites de anúncios, nos jornais e no boca a boca. Os preços variam conforme cada situação. É possível ainda se encontrar uma Vespa PX200 ano 1986 funcionando e com documentos atrasados por R$ 1.000. Por outro lado, existe Lambretta TV175 Série 3 (importada) a venda
por R$ 33 mil.

Estilo rebelde
A preocupação com o visual dos pilotos de scooters clássicos ainda está nascendo nos pilotos do Brasil. “Alguns amigos enxergam nas Lambrettas um retorno aos anos 1950 e 1960 brasileiros: erguem topetes, calçam sapatos de camurça e jaquetas de couro e saem para a cidade revivendo uma época de ouro. Nos subúrbios de São Paulo a gente sempre se identificou com a marginalidade dos scooteristas ingleses e valorizamos esse visual como expressão de identidade. Acho bom que exista isso, que as pessoas se preocupem um pouco mais com a estética. O mundo está quadrado, há opções para todos os lados e todo mundo parece igual, os carros parecem todos os mesmos, os prédios também, e o que você vê na novela você
vê nas pessoas”, contesta Fidelis.

Internet
Não tenha dúvida da importante ferramenta que a internet representa para essa turma. Seja agregar e promover e divulgar encontros, trocar experiência, ajudar na localização de partes, peças e até mesmo dos scooter para venda. Afinal, as redes sociais são ferramentas estratégicas até mesmo na hora de combinar e organizar as corridas que reúnem Vespas e Lambrettas. Mais informações sobre a Scooteria Paulista estão disponíveis no blog scooteriapaulista.blogspot.com. Já do Motonetas Clássicas de Campinas e Região e do Desafio de Motonetas você encontra no Facebook, na página  www.facebook.com/groups/168533503245717

 

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